Pânico! O meu telemóvel afogou-se!
- InsidePocket

- 18 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Dois factos relevantes para esta história: trago sempre comigo uma garrafa de água na carteira, e a nossa cadela adora roer coisas. Resultado prático: a garrafa de água abriu-se dentro da carteira (após a cadela ter roído meia tampa) e o meu amado telemóvel (que nem um ano tinha de serviços a mim prestados) afogou-se. O que aconteceu a seguir?

Desde a ver gotículas dentro da porta de carregamento até ele ter aquecido imenso numa fracção de segundo, tive a certeza de que o dia final do preicoso telemóvel chegara.
Pânico instalou-se pois que iria agora eu fazer sem o meu acesso ao Facebook, ao Hangouts, ao WhatsApp, ao Youtube, etc., etc.. Outro facto relevante para esta história: adoro ler mas parece nunca haver tempo pois toda a minha vida se mete pelo meio. Novidade chocante: consegui acabar de ler um livro de 200 páginas em 10 dias após o terrível acidente do telemóvel. Aproveitando cada segundo disponível no meio da azáfama diária e não tendo mais distrações digitais consegui este feito. Mas então por que é que não aconteceu antes? Que mais estava eu a fazer? Perdida no meu telemóvel, é claro! De minuto a minuto desbloqueava-o e via se tinha e-mail ou se algum ‘fã’ digital tinha gostado de alguma publicação minha. Quem se identifica com isto?
Vivemos num mundo em que a Internet domina o conhecimento (é o principal veículo de disseminação de informação), as relações pessoais (permite-nos estar em contacto com milhares de pessoas) e, consequentemente, as nossas vidas. Acreditamos que a Internet é essencial para as nossas vidas quer para nos mantermos informados ao lermos as notícias nos jornais on-line quer seja para nos mantermos seres sociais ao estarmos em contacto constante com os nossos amigos e conhecidos. Mas paremos para pensar um momento... Será que somos mais sociais ao enfiarmos os olhos num telemóvel dentro de nossa casa e falarmos com cinco pessoas ao mesmo tempo através de uma aplicação de chat, ou seremos mais sociais ao encontrarmo-nos pessoalmente com uma única pessoa dedicando-lhe todo o nosso tempo e atenção naqueles momentos em que disfrutamos também do ar livre ou de um maravilhoso chocolate quente?
Pouca gente vê as horas passadas a navegar na Internet ou todas as aplicações sociais que a utilizam como uma coisa má. De facto, quem é que gosta de estar desactualizado ou sentir-se isolado de outras pessoas?
O problema é que a nossa cultura está, actualmente, imersa numa forte dependência destas aplicações e as nossas vidas reais pré-aplicações ficou esquecida.
Antes das aplicações ou mesmo antes da televisão, os serões eram passados no café com amigos, em casa com a família a jogar jogos ou a contar histórias. Havia um maior contacto inter-pessoal directo que agora se perdeu porque é mais fácil sermos preguiçosos e olhar apenas para um ecrã e mexer os dedinhos.
Não digo que seja mau utilizarmos estas tecnologias pois de facto permitem-nos manter contacto com pessoas que estão noutros países ou de quem, por variados motivos, andamos sempre desencontrados mas gostamos de manter o contacto. Mas por favor, se pretendem criar laços significativos com alguém peguem em vocês, saiam de casa, vão ler o jornal, vão beber um copo e deixem os telemóveis no bolso. Não é preciso estar, de minuto a minuto, a pesquisar algo que se está a discutir naquele momento. Essas discussões fazem parte da magia do encontro e dão asas à nossa imaginação e poder de argumentação. Vamos dedicar o nosso tempo real (e não a nossa mera presença digital) a quem realmente interessa.
De momento ainda não tenho telemóvel (já lá vão três semanas) e ainda não lhe senti a falta. Na realidade, sinto-me livre. Continuo a consultar as redes sociais de vez em quando no computador mas o meu interesse diminuiu significativamente pois experienciei, em primeira mão, a maravilha que é não estar rodeada da pressão do telemóvel.







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