Minimalismo vs crianças? - o drama dos brinquedos
- InsidePocket

- 27 de mai. de 2020
- 4 min de leitura
Pergunta-se aos pais preocupados se é possível ser minimalista numa casa recheada de crianças. “Impossível!” dizem eles categoricamente. Quem não diria? Quem é que não quer que os seus filhos tenham acesso a tudo a que os pais não tiveram acesso? As últimas tecnologias, o último brinquedo que fará a criança desenvolver-se totalmente sem sair do sofá? Todos os vestidos de todas as cores que a criança adora? Quem não quer que os filhos estejam expostos a todos os estímulos possíveis?
Eu não quero! E vou dizer-vos porquê.

Inúmeros estudos recentes reportam que as crianças são mais felizes com menos! Como é que é possível? Quando expostas a menos objectos as crianças ganham a oportunidade de se focarem naqueles que têm naquele momento e, por isso, embrenham-se mais nas brincadeiras e aprendem o valor das coisas.
Brinquedos e livros
Se uma criança tiver demasiados brinquedos ou outros objectos no seu espaço, ou seja, demasiada confusão visual, vai ter menor capacidade de se focar e seguir uma brincadeira durante um tempo adequado.
Outro problema de ter muitos brinquedos, é que a criança vai assumir que pode ter tudo o que deseja pois, de uma forma ou outra, tudo lhe vai parar às mãos. Mesmo que alguém lhe diga “não” virá outro a seguir que lhe dá o que ela deseja. É difícil, neste mundo de consumismo em que vivemos, fugirmos a esta onda de comprar, comprar e comprar especialmente porque tudo é tão barato. Compram-se todos os brinquedos desejados por um preço muito baixo e, assim, se dá menos valor a tudo. Por um lado porque foi barato, por outro porque a criança sabe que tem tantos outros que não faz mal se um se estragar.
Já agora, vale a pena lembrar que ao comprarmos brinquedos baratos, em princípio estes serão foleiros (falo particularmente dos de plástico) e estragar-se-ão rapidamente. Assim, estamos a gastar dinheiro, a consumir e a deixar a criança extremamente triste porque gostava do brinquedo novo e mal começou a brincar ele estragou-se.
Então, como ajudar a criança a desfrutar mais do que possui e a dar-lhe mais valor?
A ideia chave aqui é que quanto menos temos mais valor lhe damos. Assim, poucos brinquedos terão mais valor e serão mais estimados podendo até tornar-se "bons amigos" até à idade adulta.
Enquanto adultos, devemos pensar sempre muito bem num certo brinquedo antes de o comprar para a criança. Não ceder à tentação de lhe comprar algo só para evitar prantos em público; não sofrer à tentação de lhe comprar algo porque a publicidade diz que é o brinquedo essencial para desenvolver o aspecto X ou Y da criança; não comprar algo só porque é barato! Olha bem à tua volta e percebe bem aquilo com que a criança gosta realmente de passar o tempo e investe em brinquedos de qualidade desse tipo. Por exemplo, se a criança claramente adora passar tempo a construir LEGO então pode ser uma boa prenda surpresa (sim, não é preciso esperar que a criança peça). Se a criança adora ler livros, podemos procurar aqueles mais didácticos e interessantes. Mas, mais uma vez, não exagerar. Demasiados livros por todo o lado criam a tal confusão visual que queremos evitar. Este exagero em algo que a criança gosta é natural mas deve realmente ser evitado. Se a criança adora dragões tendemos a oferecer-lhe todos os tipos de dragões porque sabemos que ela vai amar a nossa prenda. Não é lógico, porém, que os dragões percam o seu interesse se são tudo o que a criança recebe recorrentemente?
Enquanto pais, familiares ou amigos da criança devemos manter as suas paixões e os seus interesses e estimulá-los. Temos de sabotar as nossas próprias tendências consumistas por forma a ajudar cada criança a desenvolver-se no caminho que ela própria traça. Por que não oferecermos o nosso tempo e levar a criança ao cinema ou ao parque, fazer um piquenique ou jogar à bola?
Sentimo-nos obrigados a dar algo material no aniversário ou no Natal mas o melhor que lhes podemos dar é o nosso tempo!
Que brinquedos devemos privilegiar já que não queremos que o nosso filho tenha um monte de tralha por todo o lado?
Os entendidos na matéria defendem que tudo o que estimule a imaginação da criança deve ser privilegiado.
- Algo para eles construírem (pedras, legos, blocos de madeira, almofadas),
- algo que os faça imaginar novos mundos (caixas de cartão, lençóis e cobertores, telefones ou comandas antigos),
- ou assumirem novas personalidades (fatos de heróis, princesas, bruxas e piratas, chapéus, malas antigas),
- algo que os faça aprender sobre o munda natural (passeios na Natureza, animais de plástico ou madeira, puzzles, livros e jogos),
- algo que os ensine a contar e a ler de forma divertida e sem pressão (puzzles, livros, jogos).
Há muitas outras possibilidades de coisas com que as crianças podem brincar e desenvolver o seu corpo e a sua mente de forma mais saudável ao mesmo tempo que aprendem o valor das coisas e não se tornam consumistas incuráveis. A lista acima inclui coisas que podemos comprar e coisas que podemos encontrar num parque, na floresta ou na praia. O valor da Natureza no desenvolvimento das crianças é enorme (podes ler mais sobre isto aqui).
Boas brincadeiras!
Diana
Literatura sugerida
- Payne, Kim John, and Lisa M. Ross.Simplicity parenting: Using the extraordinary power of less to raise calmer, happier, and more secure kids. Ballantine Books, 2010.
- Ockwell-Smith, Sarah.The Gentle Parenting Book: How to raise calmer, happier children from birth to seven. Hachette UK, 2016.















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