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As crianças e a natureza

  • Foto do escritor: InsidePocket
    InsidePocket
  • 19 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 26 de mai. de 2020

Um corpo em desenvolvimento precisa de se exercitar, experienciar diversos movimentos e usar todas as suas partes. Também o cérebro precisa de estímulos diversificados, de desafios e problemas para resolver para um desenvolvimento saudável. Sabemos já que as crianças crescem melhor e mais felizes se tiverem às sua disposição esta variedade de estímulos. Por isto, costumamos comprar-lhes todo o tipo de brinquedos cuja publicidade diz 'ajudam o seu filho a crescer'. Muitos destes brinquedos são na realidade um 'faz-tudo' pois eles, sozinhos, apitam, chiam, andam, pisam, coisas estas que fazem apenas com que a criança fique a olhar, muito sossegada e atenta durante cinco minutos ou, na melhor das hipóteses, aprenda a carregar em botões.


Não creio que queiramos, enquanto pais, que a nossa criança seja um mero observador de fenómenos. Queremos que também os sinta e os viva em primeira mão. Assim, em vez de mexer num botão para o carro andar, porque não mexer o seu próprio corpo e levar o carro até onde deseja? Pelo caminho, poderá inventar uma paragem no mecânico ou desenhar uma estrada. Coisas fantásticas acontecem quando as crianças usam a imaginação e estimulam os seus sentidos e por isso devemos fazer tudo para incentivar isso. Uma dessas coisas que podemos fazer é tirá-los de casa e levá-los para a Natureza. A natureza pode ser uma floresta 'a sério' ou simplesmente um jardim, uma caixa de areia ou o quintal.



A literartura de desenvolvimento infantil menciona o contacto com a natureza como um dos principais fatores para um desenvolvimento saudável da criança (lista de sugestões bibliográficas em que este post se baseia em baixo).



Porque é que a natureza ajuda o desenvolvimento natural das crianças?


- Ali os pequenos encontram incontáveis estímulos para os seus sentidos como o toque das pedras, folhas, ramos, o gosto da neve ou da água, o cheiro das flores, o som das aves e do vento, a multitude de cores, texturas e formas que enchem a visão com coisas magníficas, etc.


- exercitam-se: podem correr, saltar, trepar;


- usam a imaginação: inventam tendas e casas na árvore, apagam fogos imaginários ou 'salvam' pessoas na água;


- permite a brincadeira livre já que o seu tempo não está estrurado para nenhum tipo de actividade específica (como aula de música ou jogo de futebol); podem estar consigo mesmo a fazer o que lhes apetece realmente naquele momento (se jogar futebol ou tocar flauta for o que lhes apetece podem sempre fazê-lo na floresta ou no quintal!);


- Aprendem sobre a natureza e o que dela faz parte, o que constitui o primeiro passo para a respeitarem e protegerem;


- não ganham (ou perdem) medos inconscientes de animais ou de sons já que estão expostos a eles com mais frequência até que aprendem que nenhum mal dali virá (aqui é importante um adulto explicar que, em certas ocasiões, devemos observar e admirar os animais de uma distância segura já que podem ser venenosos ou morder/picar e que certas plantas ou fungos são também venenosos ou urticantes);


- sujam-se!, algo que lhes cria um imenso sorriso de orelha a orelha. Esta felicidade leva à libertação, produção e aumento das 'hormonas da felicidade' (a dopamina, oxitocina e serotonina) fazendo com que associem esta felicidade com o estar na natureza fazendo com que o gosto pela natureza cresça cada vez mais.



A nossa experiência na Noruega com a natureza e as crianças


A nossa filha nasceu na Noruega e aí frequentou o infantário durante uns tempos. Ali, encontrámos uma realidade muito diferente da de Portugal que nos fez questionar porque é que no nosso país não se fazem as coisas de forma semelhante apesar de algumas limitações óbvias. Mas já lá vamos.


O infantário ficava junto a um bosque. As crianças, apenas com novo meses, iam já para lá pegar nas pedras e folhas. Quando o Inverno chegou, levavam neve para a sala ou levavam os miúdos para a neve deixando-os senti-la e prová-la. Nunca vi nenhum pai ou mãe norueguês preocupado por o filho estar a sujar a roupa. O que vi foram crianças super felizes a saltar em poças, a rebolar na neve, a apanhar amoras e cogumelos comestíveis. Para mim, tudo isto foi uma novidade enorme. Não faria tudo o que vi (como deixar uma criança de um ano descer um rochedo do qual, se caísse, partiria certamente a cabeça) mas a filosofia por trás desta liberdade é óbvia e só requer dos pais confiança nas habilidades dos filhos e coragem para os deixar ir e explorar sozinhos o ambiente envolvente.


Ora Portugal tem limitações para certos tipos de actividades: a floresta não se encontra ao virar da esquina numa zona urbana, a neve escasseia e chove muito. Pois no Oeste da Noruega chove ainda mais do que cá e os miúdos saem à rua todos revestidos a impermeável e lá vão eles! Porquê? Porque é a realidade deles e têm de a viver senão ficariam para sempre fechados entre quatro paredes. Creio que aqui somos comodistas. Como sabemos que a seguir a um dia de chuva virá um de sol não nos damos ao trabalho de sair com chuva ou vento. Digo isto porque é exactamente o que senti quando regressámos a Portugal mas temos tentado lutar contra esta inércia e trazer de volta à nossa família um pouquinho dos hábitos nórdicos que tanto apreciámos.



Como ajudar as crianças a desfrutar da natureza


Muitas crianças, especialmente as que vivem em ambiente urbano, não estão acostumadas a estar na natureza e têm, naturalmente, medo do desconhecido. Esse medo do desconhecido é um mecanismo de defesa inato das crianças pequenas que as protege de comerem algo venenoso ou de mexerem em algo que lhes faça mal (quem não viu já uma criança a ter de provar, pela primeira vez, um bocado de queijo ou uma flor de bróculo? A careta que fazem e a recusa imediata demonstram este medo do desconhecido inato).


É nossa missao mostrar-lhes que o desconhecido não é mau, tem apenas de ser entendido e respeitado.

É essencial que a família fomente o hábito de visitar o campo ou a floresta e expôr a criança a um contacto continuado com diferentes seres vivos para que lhes percam o medo ou repulsa e que os fiquem a conhecer e respeitar.



Também as emoções de quem os rodeia têm um papel importantíssimo já que os pequenos tendem a imitar as nossas reacções às situações. Dou-vos o nosso exemplo. Saímos com uma amiga e os seus dois filhos pequenos já muito habituados a andar por montes e campos e fomos explorar o Gerês. A nossa filha tinha nojo de caracóis, nem sequer lhes queria tocar. Os outros pequenos ficaram entusiasmadíssimos com um caracol gigante que encontraram no meio das pedras. Perante tal entusiasmo a nossa percebeu que devia estar a perder algo incrível. Logo a seguir já fazia fila para poder tocar no caracol e adorou vê-lo com as anteninhas de fora. O mesmo aconteceu ainda hoje com um abelhão do qual teve um imediato pavor. Explicámos-lhe simplesmente que se mantivesse uma certa distância e não aborrecesse o animal não haveria problema algum e poderia ver o que ele andava a fazer de planta em planta. Quando mais tarde a chamámos para vir ver o abelhão que voltara a aparecer, veio a correr toda excitada!



Literatura sugerida


- Louv, Richard. Last child in the woods: Saving our children from nature-deficit disorder. Algonquin books, 2008.


- Louv, Richard.Vitamin N: The essential guide to a nature-rich life. Algonquin Books, 2016.

- Payne, Kim John, and Lisa M. Ross. Simplicity parenting: Using the extraordinary power of less to raise calmer, happier, and more secure kids. Ballantine Books, 2010.


- Cornell, Joseph. Sharing nature with children. Dawn publications, 2009.

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